O PRÍNCIPE FELIZ – Renato Abud

AVOCANDO as fabulações de Esopo, o excêntrico escritor irlandês Oscar Wilde, no século XIX, criou contos populares ironizando os costumes e a hipocrisia da sociedade vitoriana. Entre outros, o insigne O príncipe feliz (1888), texto eloquente de divisas culturais e ênfase de moralidade, citado por Renato Abud nesta mostra de título homônimo que, metaforicamente, labora vestígios do fausto e da indigência. Entrecruzando tempos, pretérito e presente, não absorto às conjunturas da memória, Abud exuma lembranças, esquecimentos e reminiscências ressuscitando despojos colecionados de potentes des-figurações e os re-figura em variantes objetos que escovam o “realismo sempre arrebatado pelo (su)realismo” (Rancière).

Relíquias secularizadas no corpo das experiências coletivas ou pessoais, as reminiscências, ignotas ou sabidas, testemunham compelações da vivência no outrora fomentando a memória individual a iluminar a memória coletiva por processo dialógico pendular entre o sagrado e o profano, a arqueologia e a psicanálise. Dignas do encólpio da memória, as reminiscências em O príncipe feliz amalgamam dessemelhantes semeadores: o levante e o criador; digressionando tradução de venturas e desventuras, virtudes e vezos, ordens e desordens, mas… sobretudo, amealhadas poéticas que impulsionam a permanência e ditam lições ao observador o estimulando ao ofício de rememoração da sua própria experiência, a arquitetar, sugestionado, amiudadas inventivas e, a exemplo de Abud, imaginar estórias.

Consubstanciado no espírito do merz de Kurt Schwitters, Abud concebe insólitas ordens ratificadas no amanhado de escombros insurrecionais, manifestações da barbárie social, provações que nos assentam saber que “nunca houve monumento da cultura que não fosse também um monumento de barbárie” (Benjamin). Nessas (re)construções eufônicas de subsídios tangíveis e, mesmo etéreos, portadores ora de sonoridades, ora de fragrâncias, idealizadas em testa estética de comiseração poética, confessa-se a alma muriliana de que “a poesia não pode ser e nem deve ser um luxo para alguns iniciados: é o pão cotidiano de todos, uma aventura simples e grandiosa do espírito” (Murilo Mendes).

Seguro colecionador de reminiscências | resíduos, vestígios |, Abud, ao remir fragmentos de negligenciados legados, diligencia ímpar poética “fazendo ver o que não se vê, o que está debaixo do visível: um invisível que é, simplesmente, o que faz com que o visível exista” (Rancière). E assim… no olhar além, cumpre-se o dever da arte.

Maio, 2019
Pinho Neves

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