Museu de Arte Murilo Mendes | MAMM

O sal da terra e as janelas verdes: as paisagens de além-mar de João Paulo Queiroz

Nas notas finais de seu livro Janelas Verdes, onde escreve sobre cidades e personalidades portuguesas, Murilo Mendes explica que este título não se trata de uma alusão ao Museu das Janelas Verdes, mais importante museu de arte dos séculos XII a XIX em terras lusitanas: “Refere-se a espaços abertos; à liberdade; ao campo e ao mar de Portugal, ao verde que ali nos envolve sempre”.

Os cenários relatados pelo poeta juiz-forano se veem representados pelo trabalho do artista plástico João Paulo Queiroz na nova exposição do Museu de Arte Murilo Mendes. Em cartaz na Galeria Retratos-Relâmpago, O sal da terra e as janelas verdes: as paisagens de além-mar de João Paulo Queiroz reúne obras que retratam ambiências portuguesas, incluindo desenhos, pinturas e fotografias.

O registro de janelas verdes

Os trabalhos de João Paulo Queiroz são realizados com pastel oleoso, tipo de giz com textura macia e pigmento de cor intensa, sobre cartolinas de pequenas dimensões. Essa combinação, segundo o artista, garante que o trabalho seja realizado celeremente. “Começo de manhã pelas 10 horas e vou fazendo pinturas diretamente no local, rapidamente, pois a luz muda muito depressa, e assim as pinturas vão se sucedendo ao longo do dia, com as diferentes horas de luz na vegetação”, relata.

A paisagem mediterrânea de Fátima é retrata nas séries que levam o nome da cidade. Nelas, Queiroz toma por objeto azinheiras, sobreiros e oliveiras localizadas na aldeia dos Valinhos, há cerca de 1km do santuário: “o lugar é humilde e é também assim que faço este trabalho. Ali encontrei um terreno propício para uma imersão, para pintar do natural”.

As árvores desenhadas ganham um segundo ponto de vista em “Evidências”: “fotografo metodicamente o momento em que termino a pintura e a comparo com a paisagem apresentada, nesse exato momento”, explica o artista.

O tom verde das folhas dá espaço ao do mar da Praia de Costa Nova na série “Praias”. Queiroz destaca seu interesse pelo oceano e sua eternidade: “o seu infinito ritmo e tão antigo, mais antigo do que a vida na Terra”.

Em todas as séries que integram a curadoria, o artista busca aproximar-se da natureza e do seu transcendente, como uma atitude de fundo. “Há em todos estes trabalhos uma procura mais profunda, e que é incessante, que se repete em cada novo ensaio, um novo mergulho na natureza”, resume.

Poéticas em diálogo

O contato de João Paulo Queiroz com a obra de Murilo Mendes deu-se, primeiramente, devido ao interesse por poesia. E a ligação entre as obras dos dois artistas ocorreu, de maneira especial, através daquela citada nesta exposição. “Admiro muito o trabalho poético de Murilo Mendes. Sua poesia é portadora de uma itinerância terna pela paisagem, nomeadamente no livro Janelas Verdes, em que ele descreve diversas paisagens de Portugal, de Lisboa até ao norte do país”, cita.

Uma relação familiar também chamou a atenção de Queiroz: Murilo Mendes foi genro de um importante personagem da história de seu país – o historiador e político Jaime Cortesão. “Seu sogro foi um dos fundadores da revista Seara Nova, que se publicou em Portugal a partir dos anos 1920 e que constituiu um grande centro de pensamento cívico, moderno e democrático, opondo-se, claro está, à ditadura de Salazar. Foi a revista mais influente na sociedade portuguesa do século XX”, rememora.

O artista destaca, ainda, sua afinidade com a poética de Murilo Mendes e com seu diálogo com a cultura portuguesa, especialmente por meio da relação com figuras como António Sérgio e o grupo da revista Seara Nova. “Murilo Mendes conheceu e leu António Sérgio, educador que defendia uma educação para a autonomia, propondo abordagens inovadoras que me interessam também muito enquanto professor e especialista em educação artística”, completa.

Conexões sensíveis

A oportunidade de expor no Museu de Arte Murilo Mendes surgiu, para Queiroz, como um gesto de aproximação afetiva e intelectual. “A possibilidade de mostrar o meu trabalho no Museu apaixonou-me, pois é aqui que está uma das maiores coleções de arte modernista do Brasil, oriunda do próprio acervo do poeta, assim como um centro de documentação e uma biblioteca que considero exemplares”, afirma o artista.

Para o superintendente do MAMM, Aloisio Castro, a exposição é uma oportunidade especial de aprofundar o diálogo entre artes visuais e literatura. “A obra de João Paulo Queiroz se conecta de forma sensível à de nosso patrono. Ao relacionarmos essas duas poéticas, podemos promover uma leitura visual das ‘janelas verdes’ que Murilo Mendes viu, sentiu e escreveu naquele país”, avalia.

A realização da mostra é motivo de grande satisfação para o museu, especialmente no ano em que celebra seus 20 anos. “Esta exposição não apenas valoriza a poética muriliana, como também fortalece os laços históricos e culturais entre Brasil e Portugal, tão presentes na vida e na obra de Murilo Mendes”, conclui o superintendente.

Sobre o artista

João Paulo Queiroz é natural de Aveiro, Portugal. Possui curso superior em Pintura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. É mestre em Comunicação pelo Instituto Universitário de Lisboa, onde, atualmente, leciona na Faculdade de Belas-Artes. Também é professor nos cursos de doutoramento em Educação Artística da Universidade do Porto e de doutoramento em Artes da Universidade de Sevilha.

Ao longo de sua carreira, realizou mais de 20 exposições individuais, além de coletivas em diversos países, como Portugal, Brasil, Espanha, Alemanha e França. Em 2004, foi agraciado com o Prêmio de Pintura Gustavo Cordeiro Ramos pela Academia Nacional de Belas-Artes.