O Museu de Arte Murilo Mendes apresenta a exposição
“Presenças suspensas: Carla Pohle e as formas da expressão”, dedicada à artista alemã Carla Pohle, nome ainda pouco conhecido do grande público, mas cuja trajetória esteve ligada aos movimentos centrais da arte moderna europeia do início do século XX. Ocupando a galeria Convergência, a mostra reúne 27 obras da artista, entre gravuras, desenhos e aquarelas, em diálogo com trabalhos do acervo do museu e outras obras pertencentes à coleção particular do historiador da arte Jorge Coli, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Com curadoria do professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em História (PPGH) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Martinho Alves da Costa Junior, a exposição propõe uma reflexão sobre as imagens produzidas em contextos de instabilidade histórica, política e existencial. A partir da obra da expressionista Carla Pohle, a mostra articula temas como o corpo em crise, os retratos, as paisagens e as tensões do mundo moderno.
Presença suspensa
Carla Pohle (1883-1962) foi uma artista alemã vinculada ao ambiente do expressionismo alemão nas primeiras décadas do século XX. Nascida em Bremerhaven-Lehe, estudou e atuou em Munique, onde participou da efervescência artística que transformou a arte moderna europeia. Em 1909, integrou a primeira exposição da “Nova Associação de Artistas de Munique”, ao lado de artistas como Wassily Kandinsky, Gabriele Münter e Alexej von Jawlensky.
Sua produção reúne gravuras, desenhos, pinturas e aquarelas marcadas por forte intensidade expressiva. Os retratos, autorretratos e figuras humanas ocupam lugar central em sua obra, frequentemente atravessados por temas como solidão, tensão existencial e fragilidade humana. Carla Pohle também realizou paisagens em viagens pelo Mediterrâneo, especialmente pela Grécia e Turquia, nas quais explorou atmosferas mais delicadas e transitórias.
Descrevendo a obra da artista, Jorge Coli destaca sua veemência e concentração: “o espaço é comprimido, as figuras invadem a superfície. Evita qualquer sentimentalismo, numa linhagem que privilegia a interioridade e a gravidade. Suas linhas são seccionadas, em hachuras que intensificam a imagem. Tem um evidente domínio do equilíbrio nas massas figuradas. Nas aquarelas, a cor é diluída, lavada, mas sempre atravessada por eixos verticais ou diagonais estruturantes. Os mastros, troncos, linhas de encosta são fundamentais: a atmosfera é instável, mas a estrutura é firme. Isso cria tensão entre fluidez e ossatura”.
A artista viveu os impactos das duas guerras mundiais e teve obras apreendidas pelo regime nazista na campanha contra a chamada “arte degenerada”. Nas últimas décadas de vida, viveu de forma reclusa em Herrsching am Ammersee, no sul da Alemanha. Apesar de permanecer por muito tempo esquecida pela história da arte, sua obra vem sendo redescoberta por pesquisas e exposições recentes, que destacam a singularidade e a força de sua produção.
Coleções em diálogo
Os trabalhos de Carla Pohle dialogam com obras de artistas que integram as coleções de Murilo Mendes, entre eles Candido Portinari, Lívio Abramo, Fayga Ostrower, Achile Perilli e Tomonory Toyofuku, e de Jorge Coli, como Eugênio Sigaud, Irmgard Longman, Bálazs Böröcz, Leopoldo Gotuzzo e Nelson Maravalhas. O percurso curatorial constrói aproximações entre diferentes temporalidades e linguagens, revelando como a figura humana, a paisagem e a própria imagem carregam marcas das experiências traumáticas do século XX.
“A experiência dessa aproximação procura incitar uma inteligência intuitiva, que opera em camadas silenciosas. A mostra estabelece ligações que irradiam a partir da obra da artista e se expandem pelo conjunto, fazendo emergir ressonâncias nas quais cada imagem passa a existir também como efeito das outras”, destaca o curador.
Segundo Costa Junior, a exposição não busca apenas apresentar uma artista omitida pela história da arte, mas compreender como sua produção permanece atual diante das inquietações contemporâneas. “A relação entre as coleções torna-se uma chave fundamental para compreender não apenas a singularidade da obra de Carla Pohle, mas como sua obra pode ser compreendida como a condição mais ampla para se pensar a humanidade e seu espaço de permanência no mundo”, analisa.
A exposição marca um momento de pioneirismo no cenário artístico e museológico brasileiro. Trata-se da primeira curadoria dedicada à obra de Carla Pohle realizada no país. “A crescente atenção internacional dedicada à artista insere a mostra do MAMM em um campo ampliado de compreensão de sua produção. A exposição individual realizada em Herrsching am Ammersee, em 2024, assim como a futura mostra dedicada às artistas do círculo do Cavaleiro Azul, prevista para Munique em 2027, evidenciam a relevância historiográfica que a obra de Carla Pohle vem adquirindo”, avalia Costa Junior.
A mostra representa igualmente a primeira exposição pública da coleção de Jorge Coli. O conjunto apresentado reúne um recorte específico das obras pertencentes ao historiador da arte e professor emérito da Unicamp. O curador reflete que o olhar de Coli é aquele também do colecionador: “a paixão pelas imagens se instaura com particular acuidade: Devéria, Cormon, Amisani, Amoedo, Chambeland, entre tantos outros. Para essa mostra, apenas um recorte, que obedece a uma lógica instaurada pela compreensão do conjunto de obras de Carla Pohle. É partir desse eixo que as imagens foram pensadas”.
Fruto da parceria entre o MAMM e o PPGH/UFJF, “Presenças suspensas: Carla Pohle e as formas da expressão” integra as comemorações dos 20 anos do museu e reafirma a vocação da instituição como espaço de pesquisa, preservação e difusão cultural. “Exposições como esta desempenham papel fundamental, dinamizando o circuito expositivo e viabilizando a atualização crítica dos acervos. Elas fomentam o intercâmbio entre instituições e pesquisadores, e ampliam o acesso da sociedade à produção artística e ao conhecimento especializado”, conclui o superintendente do MAMM, Aloisio Castro.