MAMM inaugura exposição de Julia Ciampi e Tiago Lima nesta quinta-feira, 6
Antes de existirem esculturas, relevos, fotografias ou cianotipias, existia a caminhada. Era percorrendo a extensa faixa de areia da Praia Grande, em Arraial do Cabo, Rio de Janeiro, que os artistas Julia Ciampi e Tiago Lima começavam, ainda sem saber, a construir a pesquisa que hoje resulta na exposição “Paisagem: áspera pele”, em cartaz no Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
“Acho que antes mesmo de existir qualquer obra existia uma espécie de exposição prolongada. Exposição no sentido mais literal mesmo. O corpo exposto ao sol, ao sal, ao vento. Exposto a uma duração. Porque a relação com aquela praia vem muito antes da ideia de trabalho”, refletem os artistas.
A mostra reúne 60 obras produzidas entre 2023 e 2026 e apresenta o desdobramento de uma pesquisa desenvolvida colaborativamente. Embora a prática em dupla tenha se consolidado nos últimos anos, a relação dos artistas com esse território é muito anterior à produção das obras. Frequentada desde a infância, a Praia Grande deixou de ser apenas um lugar de memória para tornar-se um espaço de investigação, onde o percurso repetido permitiu perceber transformações quase imperceptíveis na paisagem e nos objetos que ela abriga.
Objetos à deriva
Ao longo das caminhadas, fragmentos de madeira, cortiça, plásticos, borracha, boias, redes, sandálias e outros materiais devolvidos pelo mar passam a compor um arquivo da própria paisagem. “São objetos que chegam atravessados por muitas temporalidades. O tempo industrial da fabricação seriada. O tempo lento do desgaste. O tempo atmosférico da maresia. O tempo corporal da caminhada. O tempo do ateliê depois”, reflete Julia Ciampi.
No texto curatorial, Ricardo Cristofaro observa que os objetos encontrados (objets trouvés) deixam de ser percebidos apenas como vestígios da atividade humana para assumirem novas possibilidades de significado. No ateliê, os materiais são limpos, observados, classificados e reorganizados. É nesse segundo momento que formas, texturas, pesos e tonalidades passam a orientar a criação artística.
“Muitos desses objetos foram encontrados naquela paisagem, mas não pertencem originalmente a ela. Eles são estrangeiros”, comenta Tiago. “Os objetos falam também sobre deslocamento. Sobre ser impregnado por uma paisagem que não é a sua origem.”
A ideia do deslocamento atravessa toda a exposição. Objetos produzidos em série tornam-se únicos após anos de exposição ao vento, ao sal, ao atrito com a areia e à ação das correntes marítimas. Suas superfícies registram o tempo, revelando marcas impossíveis de serem reproduzidas artificialmente. “A paisagem impõe uma paleta. Os objetos já chegam desbotados pelo sol, pela água salgada, pelo tempo. São cores que já foram tocadas pelo tempo”, explica Julia.
Um certo poeta
O diálogo com Murilo Mendes nasce precisamente desse entendimento da paisagem como um lugar de deslocamentos e permanências. Um dos pontos de partida da exposição é um poema do escritor. No texto, é apresentado um mar capaz de produzir, arrastar e lançar à costa destroços, garrafas esquecidas e fragmentos da atividade humana.
Certo mar
Murilo Mendes
[…]
O mar autárquico:
Ele me atira barbatanas e algas podres,
Destroços de manequins e papéis velhos,
Arrastando para longe barco e sereia.
O mar tem ideias singulares sobre mim,
Manda-me recados insolentes
Em garrafas há muito esquecidas e sujas.
Suprime de repente o veleiro […]
Que vinha beirando o cais.
[…]
Inútil: espremida esponja, carcaça de canoa,
Avesso de fotografia.
O livro “Parábolas”, de acordo com Cristofaro, revela uma fase surrealista de Murilo Mendes: “ele transita entre o material e o espiritual, explorando o eu lírico em relação a elementos da natureza e a necessidade de reordenar o caos do mundo. Nessa obra, encontra-se o poema ‘Certo Mar’, no qual o poeta estabelece uma tensão, a uma certa distância, com um mar autônomo que produz o que necessita e, ao mesmo tempo, atira, arrasta, lança para fora recados insolentes, destroços e tudo aquilo que não lhe pertence”, evidencia o texto curatorial.
Reflexos da paisagem
O percurso expositivo reúne esculturas construídas por empilhamentos e delicados equilíbrios, relevos compostos por fragmentos de sandálias e boias de pesca, fotografias produzidas durante as caminhadas e cianotipias realizadas a partir de redes e plásticos encontrados na praia. Embora distintos em linguagem, todos os trabalhos compartilham um mesmo interesse pela observação paciente da paisagem e pela capacidade dos materiais de guardar a memória do tempo.
Tiago acredita que nunca quiseram representar a paisagem com esses trabalhos: “talvez refletir seja uma palavra mais próxima. Porque o reflexo nunca devolve uma imagem estável. Ele distorce. Oscila. Falha. Então talvez as obras sejam menos representações da paisagem do que superfícies atravessadas por ela”. Julia complementa dizendo que a paisagem nunca foi exatamente uma imagem para eles: “primeiro ela foi experiência física. Uma praia muito extensa. Longa demais para o corpo. Longa demais para o olhar”, conclui Julia.
Viabilizada por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), a exposição será inaugurada nesta quinta-feira, 6 de agosto, a partir das 19h, na galeria Retratos-relâmpago do MAMM, em Juiz de Fora.
Sobre os artistas
Julia Ciampi é bacharela em Artes & Design e em Artes Visuais pela UFJF, com formação complementar pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Atualmente, é mestranda em Artes Visuais na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Tiago Lima também realizou formação na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, é bacharel em Design e Artes Visuais pela UFJF, mestre em Poéticas Visuais pela mesma instituição e atualmente doutorando em Artes Visuais na UFMG. Sua pesquisa de mestrado resultou no fotolivro “nado” (2025), lançado pelo Institut pour la Photographie, em Lille (França), e posteriormente apresentado em eventos internacionais, como o Festival ZUM, do Instituto Moreira Salles, em São Paulo, e em Nova York.
Ao longo de sua trajetória, a dupla recebeu bolsas e apoios por meio de programas públicos de fomento à cultura, entre eles o Programa Cultural Murilo Mendes, da Fundação Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), que resultou na exposição “QUANTAS” (2023). Em 2024, participaram da mostra coletiva “Alvorada”, na Galeria Anita Schwartz (Rio de Janeiro), como parte do Projeto GÁS, plataforma dedicada a destacar vozes emergentes da arte contemporânea brasileira. Em 2025, foram contemplados pelo edital da PNAB, por meio do qual realizam a exposição “Paisagem: áspera pele”, no MAMM.