Museu de Arte Murilo Mendes | MAMM

Fayga Ostrower é destaque em novas exposições do MAMM

Mostras refletem vida e obra da artista e pesquisadora

Fayga Ostrower em seu ateliê em Santa Teresa, 1966 (Foto - Instituto Fayga Ostrower)

Fayga Ostrower em seu ateliê em Santa Teresa, 1966 (Foto: Instituto Fayga Ostrower)

“Armada dum tal rigor ela nos transmite a gravura em sua pureza específica, em sua categoria autônoma, alcançando assim a madureza”. Assim, Murilo Mendes definiu o trabalho da artista Fayga Ostrower, em texto para a exposição realizada no Ministério de Educação e Cultura, no Rio de Janeiro, em 1956. Amiga do poeta juiz-forano, a gravadora, pintora, desenhista, ilustradora, teórica da arte e professora polonesa, radicada no Brasil, ganha duas novas mostras no Museu de Arte Murilo Mendes.

“Ocupação Fayga Ostrower” percorre a trajetória da artista, evidenciando sua múltipla e variada produção em diversas áreas do conhecimento e técnicas de criação. Já “Fayga Ostrower: a conquista da pureza fundamental” dedica-se a sua produção gráfica, com obras datadas desde a década de 1940 até o início deste século, percorrendo grande parte de sua carreira e revelando uma importante amostragem da historiografia da arte.

As exposições serão inauguradas em sessão solene nesta quinta-feira, 21 de agosto, a partir das 19h, com entrada gratuita. O evento, que também celebra a inauguração da Oficina de Gravura Ostrower, contará com a ilustre presença da filha da artista e presidente da Diretoria Executiva do Instituto Fayga Ostrower, Noni Ostrower, que será homenageada em nome dos herdeiros. A ação integra as comemorações de 20 anos do Museu de Arte Murilo Mendes.

“É uma grande honra para o MAMM dedicar duas exposições ao legado de Fayga Ostrower, uma artista cuja contribuição ultrapassa o campo da produção gráfica. Fayga foi uma teórica da arte, uma educadora comprometida com a formação crítica e sensível, além de ter sido um dos nomes fundamentais para a consolidação da gravura como linguagem autônoma no Brasil. Estas mostras reúnem obras que testemunham a relevância de Fayga Ostrower para a arte e a educação e reafirma o compromisso do MAMM para a valorização da memória artística e intelectual de mulheres que transformaram o panorama cultural brasileiro”, destaca o superintendente do MAMM, Aloisio Castro.

Ocupação Fayga Ostrower

Dedicada à multifacetada trajetória da artista, a ocupação localizada na galeria Poliedro destaca seu interesse experimentar diferentes materiais. Além de sua produção gráfica, apresenta trabalhos em desenho, pintura em aquarela, desenhos em nanquim, ilustrações para livros e jornais e reproduções de estampas de tecidos realizadas por Fayga.

Ocupação Fayga Ostrower (Foto - Divulgação MAMM)

Ocupação Fayga Ostrower (Foto: Divulgação/MAMM)

O objetivo da mostra é revelar a amplitude e a riqueza da produção da artista. “Ao reunir esses trabalhos em diferentes linguagens, além de suas contribuições teóricas para o pensamento artístico, buscamos oferecer ao público uma oportunidade de compreender a artista em sua totalidade, como criadora, pensadora e referência na arte”, avalia Paulo Alvarez, responsável pela Divisão de Expografia do MAMM.

À esquerda, gravura reimpressa pelo projeto Amigos da Gravura, e, à direita, obra doada pela artista ao Centro de Estudos Murilo Mendes (Foto - Divulgação MAMM)

À esquerda, gravura reimpressa pelo projeto Amigos da Gravura, e, à direita, obra doada pela artista ao Centro de Estudos Murilo Mendes (Foto: Divulgação/MAMM)

Importantes obras que fazem parte da história do MAMM também estão incluídas nesta curadoria. A primeira delas é uma gravura doada pela própria artista ao Centro de Estudos Murilo Mendes, há 25 anos, quando foi realizada a exposição “A Música da Aquarela”. Outro trabalho é a gravura em metal de 1992 reimpressa pelo projeto Os Amigos da Gravura, dos Museus Castro Maya, em celebração ao centenário da artista. Um dos exemplares dessa tiragem realizada a partir de matriz original cedida pelo Instituto Fayga Ostrower foi doado ao museu em 2022.

As pesquisas desenvolvidas no campo acadêmico são evidenciadas por livros de teoria das artes escritos por Fayga ao longo de sua trajetória, como “A sensibilidade do intelecto” e “Acasos e criação artística”.

A conquista da pureza fundamental

Fayga Ostrower a conquista da pureza fundamental (Foto - Divulgação MAMM)

Fayga Ostrower: a conquista da pureza fundamental (Foto: Divulgação/MAMM)

Ocupando a maior galeria do museu, Convergência, a exposição Fayga Ostrower: a conquista da pureza fundamental reúne um acervo que, em grande parte, é mostrado ao público presencialmente pela primeira vez. Trata-se de uma curadoria que integra quase a totalidade dos dois grandes lotes de doações realizados pelo Instituto Fayga Ostrower entre os anos de 2019 e 2020. Na ocasião, quando se celebrava o centenário da artista, o MAMM recebeu 67 obras de arte em suporte de papel e cinco matrizes – um conjunto que se tornou a segunda maior coleção museológica da instituição.

As obras apresentam desde elementos do expressionismo das décadas de 1940 e 1950, até a adoção da linguagem abstrata lírica das décadas finais de sua carreira artística na década de 2000. Além disso, possibilitam o enriquecimento da linha historiográfica da Coleção Murilo Mendes, contemplando trabalhos que integram a linguagem estética relativa à gênese do colecionismo muriliano.

Obras de Fayga Ostrower que integram a Coleção Murilo Mendes (Foto - Divulgação MAMM)

Obras de Fayga Ostrower que integram a Coleção Murilo Mendes (Foto: Divulgação/MAMM)

Os três trabalhos de Fayga que integram a Coleção Murilo Mendes também participam da mostra. Entre elas, uma gravura em metal que retrata uma lavadeira apresenta uma dedicatória: “Para Saudade e Murilo Mendes”.

“Esta mostra representa um momento especial, pois revela, pela primeira vez de forma presencial, um conjunto fundamental do nosso acervo. Essa é uma oportunidade de revisitar os caminhos da arte moderna e contemporânea brasileira a partir de uma das artistas mais consistentes e sensíveis de nossa história”, avalia Castro.

Exposição reúne gravuras doadas pelo Instituto Fayga Ostrower em celebração ao centenário da artista (Foto - Divulgação MAMM)

Exposição reúne gravuras doadas pelo Instituto Fayga Ostrower em celebração ao centenário da artista (Foto: Divulgação/MAMM)

Oficina de Gravura Ostrower

Oficina homenageia Fayga Ostrower devido ao seu trabalho enquanto educadora (Foto - Divulgação MAMM)

Oficina homenageia Fayga Ostrower devido ao seu trabalho enquanto educadora (Foto: Divulgação/MAMM)

O museu também inaugura oficialmente a Oficina de Gravura Ostrower, espaço dedicado à prática da arte gráfica e atividades de arte-educação. A homenagem se deve a sua atuação como educadora: Fayga deu cursos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e em outras instituições no Brasil e no exterior, além de ter desenvolvido atividades voltadas para operários e em centros comunitários.

A oficina é equipada com uma prensa para impressão artística de gravuras e relevos e outros materiais necessários para o desenvolvimento da técnica, como goivas, formões, tintas e rolos. Em 2024, o espaço foi utilizado para a realização de uma das disciplinas de gravura do Instituto de Artes e Design (IAD) da Universidade Federal de Juiz de Fora.

A professora de gravura do IAD, Marise Moreno, será a docente responsável pela oficina, que ainda este mês, receberá um curso de lineogravura. As inscrições para a atividade serão abertas ao público em breve.

Sobre a artista

Fayga Ostrower em seu ateliê com provas do Político do Itamaraty, 1969 (Foto - Instituto Fayga Ostrower)

Fayga Ostrower em seu ateliê com provas do Político do Itamaraty, 1969 (Foto: Instituto Fayga Ostrower)

Nascida em Lodz, na Polônia, Fayga Ostrower chegou ao Rio de Janeiro em 1934. Cursou Artes Gráficas na Fundação Getúlio Vargas, onde foi aluna de nomes como Axl Leskoschek e Hanna Levy-Deinhard. Realizou grandes exposições e foi premiada no Brasil e no exterior: destacam-se o Grande Prêmio Nacional de Gravura da Bienal de São Paulo, em 1957, e o Grande Prêmio Internacional da Bienal de Veneza, no ano seguinte.

Entre os anos de 1954 e 1970, lecionou Composição e Análise Crítica no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Neste período, também foi docente nos Estados Unidos e na Inglaterra e em programas de pós-graduação de diversas universidades brasileiras. Com o objetivo de divulgar e popularizar a arte, realizou cursos para operários e em centros comunitários. Publicou seis livros sobre arte e criação artística, além de inúmeros artigos e ensaios.

Heinz, Fayga, Carl Robert e Noni Ostrower, 1972 (Foto - Instituto Fayga Ostrower)

Heinz, Fayga, Carl Robert e Noni Ostrower, 1972 (Foto: Instituto Fayga Ostrower)

Foi presidente da Associação Brasileira de Artes Plásticas (1963-1966) e da comissão brasileira da Internacional Society of Education through Art da Unesco (1978-1982). Participou do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro (1982-1988). Foi condecorada com a Ordem do Rio Branco (1972) e com o Prêmio do Mérito Cultural (1998) e, em 1999, recebeu o Grande Prêmio de Artes Plásticas do Ministério da Cultura.

Fayga foi casada com o historiador Heinz Ostrower, com quem teve dois filhos: Anna Leonor (Noni) e Carl Robert. A artista faleceu aos 80 anos no Rio de Janeiro.