Museu de Arte Murilo Mendes | MAMM

“Isso tem a ver com honrar a memória e a trajetória de Fayga Ostrower”

Homenageada pelo MAMM, Noni Ostrower fala sobre a mãe, Murilo Mendes e as doações que marcaram o centenário da artista

Homenageada em seu nome e do irmão Carl Robert, Noni Ostrower participou da cerimônia de abertura das exposições “Fayga Ostrower: a conquista da pureza fundamental” e “Ocupação Fayga Ostrower”, no Museu de Arte Murilo Mendes. As mostras celebram o legado da multifacetada artista e apresentam presencialmente, pela primeira vez, grande parte do acervo doado ao MAMM pelos herdeiros em ocasião de seu centenário.

Na solenidade, a presidente da Diretoria Executiva do Instituto Fayga Ostrower recebeu uma placa em reconhecimento à doação realizada em 2019. O texto da homenagem destaca a generosidade dos filhos, ressaltando que a iniciativa enriqueceu o acervo do museu e fortaleceu o compromisso da UFJF com a preservação, pesquisa e difusão da arte.

Emocionada, Noni agradeceu a distinção: “Estou sem palavras com tudo isso que vocês fizeram. Tenho um carinho enorme pelo MAMM e por Juiz de Fora”. Ela explicou que a estima se deve, em grande parte, à amizade entre Fayga e Murilo Mendes. “Minha mãe era muito jovem quando começou a enveredar pela transição do figurativo para o abstrato e foi ‘metralhada’ com críticas. No meio desse temporal, uma das pouquíssimas pessoas que a apoiou foi Murilo Mendes. Eu não o conheci, mas tenho um carinho enorme por ele. Não tem tamanho! Ele foi fundamental na carreira dela”, contou.

Doações que democratizam o acesso à arte

Homenageada pelo MAMM, Noni Ostrower falou sobre as doações realizadas em razão do centenário da artista

Homenageada pelo MAMM, Noni Ostrower falou sobre as doações realizadas em razão do centenário da artista (foto: Carolina de Paula/UFJF)

Em comemoração ao centenário de Fayga, os herdeiros realizaram doações de obras para instituições no Brasil e no exterior. “Nossa proposta era que, como contrapartida, os espaços realizassem alguma homenagem pelo centenário. Em 2020, já tínhamos a primeira exposição nas paredes da UERJ quando começou a pandemia de Covid-19”, relembrou.

Apesar das dificuldades do período, o Instituto prosseguiu com os envios. “Naquela época, mandei uma carta liberando a contrapartida da exposição. Disse aos museus: façam o que puderem e quando puderem. Até o momento, 52 espaços foram contemplados, em todas as regiões do país, a fim de democratizar o acesso ao acervo”, avaliou.

A iniciativa, segundo Noni, deve continuar até que se finalize todo o acervo em posse dos herdeiros. “É uma forma de honrar o compromisso que ela tinha em democratizar o acesso à arte. Ela sempre fez isso: em exposições, em centenas de palestras pelo país e no exterior. Então, vocês ficam lisonjeados de receber, mas a mais homenageada sou eu em poder doar esse acervo. Isso tem a ver com honrar a memória e toda a trajetória dela”, afirmou.

O processo criativo de Fayga

Ao falar sobre a mãe, Noni Ostrower compartilhou lembranças marcantes de sua rotina de trabalho. Explicou que Fayga não permitia a presença de ninguém em seu ateliê durante a criação, e que mesmo as imagens que hoje circulam mostrando a artista em ação foram, na verdade, fotografias posadas. “Eu aprendi com ela que o trabalho criativo é um trabalho que dá muito trabalho, trabalho físico. Entalhar madeiras, entintar, depois limpar toda a sujeira no final do dia… não existe inspiração caída do céu. É esforço, disciplina e entrega. E isso não vale apenas para o artista: criar um filho dá trabalho, escrever um livro dá trabalho, qualquer coisa que a gente vá fazer dá trabalho”, refletiu.

Noni também recordou a obstinação da mãe diante de cada obra. Contou que, mesmo depois de mostrar gravuras em andamento a amigos em encontros que atravessavam a madrugada, Fayga continuava trabalhando meses a fio, até alcançar a satisfação plena. “Ela dizia que tanto o começo quanto o fim eram difíceis. A folha em branco era um desafio enorme, como se tivesse que esquecer tudo que sabia para recomeçar do zero. E, ao final, a dificuldade era decidir o ponto certo de parar, para que nada fosse excessivo”, relatou.

Para Noni, essa postura traz uma lição que ultrapassa o universo da arte e se estende à vida cotidiana: “Todos os dias, ao acordar, a vida nos coloca diante de uma folha em branco. Esse é um vínculo direto entre a vida do artista e a vida de todos nós”, concluiu.

Honra e compromisso

Autoridades Exposição Fayga Ostrower

O superintendente do MAMM, Aloisio Castro, o vice-reitor da UFJF, Telmo Ronzani, a presidente da diretoria executiva do Instituto Fayga Ostrower, Noni Ostrower, e o pró-reitor de Cultura da UFJF, Marcus Medeiros (foto: Carolina de Paula/UFJF)

Na cerimônia, representantes da Universidade Federal de Juiz de Fora agradeceram e celebraram as doações realizadas ao MAMM. O superintendente do museu, Aloisio Castro, destacou a inauguração das exposições e da Oficina de Gravura Ostrower como uma reverência a obra e ao legado da artista. “A presença de Noni conferiu um significado ainda mais especial ao momento, pois representou, de modo simbólico, a continuidade afetiva da amizade de sua mãe e o poeta Murilo Mendes, patrono de nosso museu”, avaliou.

Castro reiterou que, desde a doação, a equipe técnica do MAMM – em consonância com os preceitos estabelecidos pela Lei do Estatuto dos Museus e demais documentos normativos da Política Nacional de Museus – dedicou-se ao cumprimento de todas as etapas metodológicas da cadeia operatória museológica indispensáveis à preservação, à pesquisa e à difusão universitária. “Tal como disposto em nosso Plano Museológico 2024-2027, foram conduzidos, de forma criteriosa, o fichamento técnico, a documentação fotográfica, a conservação e a restauração das obras, bem como seu adequado acondicionamento técnico em materiais nobres e da mais alta qualidade técnica de preservação. Também foram realizadas a pesquisa catalográfica, o inventário museológico e o tombamento patrimonial de toda Coleção Fayga Ostrower. Todo este trabalho foi fundamental para que, neste ano tão importante para nossa história, possamos apresentar essas duas ricas e importantes exposições ao nosso caro público”.

O pró-reitor de Cultura, Marcus Medeiros, reforçou o agradecimento pela generosidade pelas reiteradas doações realizadas pelo IFO. “Permitam-me fazer minhas as palavras do próprio Murilo Mendes, que identificou na artista a busca da pureza fundamental e, por isso, o abandono dos truques e dos recursos fáceis em favor do rigor baseado no estudo e no desenvolvimento da forma”, refletiu.

O vice-reitor da UFJF, Telmo Ronzani, reiterou que as mostras consolidam ainda mais as comemorações dos 20 anos de MAMM e promovem o acesso ao trabalho de uma artista que teve uma grande relação com Murilo Mendes. “Nós reforçamos o compromisso, que é um legado da nossa gestão, em continuar fortalecendo a arte e a cultura em Juiz de Fora. É um motivo de muita honra e orgulho termos essas exposições abertas aqui no MAMM”, concluiu.

Confira a galeria de fotos do evento