Muitas das cidades, que se tornam textos em obras de diferentes escritores, são as mesmas que nós enquanto moradores vivenciamos cotidianamente, passando por ruas e avenidas, em frente de prédios e parques que vieram de outras épocas e que frequentam outras histórias. Porém, nas banalidades apressadas do dia-a-dia, ignoramos que cada um destes locais por onde passamos guarda mistérios, memórias ocultas, fantasmas de outras épocas e histórias que foram lá vividas – algumas delas perdidas para sempre, outras ainda registradas em notícias de jornais e em obras memorialísticas, sem mencionar as imaginadas em ficções que se ancoram nestes referentes concretos.
Se o tempo passa, e leva consigo pessoas, comportamentos e materialidades do urbano, as narrativas dos escritores memorialísticos permitem-nos parcialmente recuperar o que se foi ou o como deveria ter sido, apresentando-nos camadas de acontecimentos que se sobrepõem em um mesmo espaço urbanos: um local que foi e está sendo vivido por muitos.
Com isso, poder caminhar por estas ruas da cidade, ao som deste passado ecoando a cada passo que damos, é uma tentativa de reescrever nas paisagens os episódios destas outras vidas, confrontando o que se ouve com o que se vê, tensionando temporalidades em um mesmo espaço.
E isto nos permite perceber como as paisagens compõem-se dos traços passados que recusam-se a nos abandonar, com a força do presente que sobrecarrega os sentidos e, por que não, com as potencialidades de um futuro que ainda será e através dos apelos criativos da imaginação ficcional.
Poder caminhar, escutando e vendo estas paisagens escritas de Juiz de Fora, tal é o objetivo do projeto “Paisagens Literárias: roteiros poéticos pelas ruas de Juiz de Fora”. Através dele, visamos disponibilizar, gratuitamente, roteiros audioguiados pelos pontos e marcos desta cidade que foi e continua sendo narrada em obras de escritores e escritoras ficcionais e/ou memorialistas.
Como exemplo destas possibilidades, em a “Idade do Serrote” (1968), de Murilo Mendes, assim como no “Baú de Ossos” (1972) e “Balão Cativo” (1973), de Pedro Nava, identificamos diversos relatos que descrevem memorialisticamente inúmeros locais e atrativos culturais e turísticos da cidade de Juiz de Fora. Estas três obras foram escritas nas décadas de 1960 e 1970, recuperando as paisagens da cidade nas primeiras décadas do século XX.
Nelas, é recorrente a descrição de locais e situações que os escritores juizforanos vivenciaram em sua infância e juventude, como no caso da tradicional Rua Halfeld. Para Murilo Mendes, ““a rua Halfeld é uma reta muito comprida, começando às margens do Paraibuna e terminando além da Academia de Comércio” (Mendes, 2003, versão Kindle). Enquanto, para Pedro Nava, “a rua Halfeld desce como um rio, do morro do Imperador, e vai desaguar na praça da Estação” (Nava, 2012, versão Kindle).
O projeto “Paisagens Literárias: roteiros poéticos pelas ruas de Juiz de Fora” é uma idealização e execução do Departamento de Turismo da Universidade Federal de Juiz de Fora, em parceria técnica com o Museu de Artes Murilo Mendes. O que propomos são novas maneiras de experimentar e interpretar criticamente a paisagem do centro histórico da cidade, ao mesmo tempo que traz a valorização de escritores locais. Partindo deste pressuposto, as ações da equipe são norteadas por indagações que vão na seguinte direção: como a literatura auxilia na compreensão da paisagem local? Qual a relação estabelecida entre a paisagem literária e o turismo? Como a interpretação da paisagem literária juizforana pode contribuir para o turismo pedagógico-literário na cidade?
Acreditamos que os audioguias são oportunidades de ouvintes-leitores saírem de casa, colocando-se fisicamente nestes pontos e marcos para, assim, sentirem corporalmente as diferentes experiências registradas em uma mesma espacialidade, vivendo a tensão entre a que escuta e a que percebe no “aqui e agora” de sua imersão.
E com a primeira fase concluída, apresentamos os audioguias das “Caminhadas pelo ‘reino de Juiz de Fora’ de Murilo Mendes, na Idade do Serrote”, convidando os interessados a percorrerem as ruas da cidade ao som deste poeta, deixando-se guiar pelas paisagens que ecoam outros tempos e que ainda reverberam no aqui e no agora.
Como um dos resultados do projeto “Paisagens Literárias: roteiros poéticos pelas ruas de Juiz de Fora”, disponibilizamos gratuitamente aos interessados os audioguias que roteirizam determinados marcos urbanos da cidade de Juiz de Fora (MG) a partir das memórias do poeta Murilo Mendes (1901-1975), especificamente aquelas recordações de sua infância registradas em sua obra autobiográfica intitulada “A idade do serrote” (publicado originalmente em 1968).
Já adulto, Murilo tenta puxar pelo fio da memória para resgatar as primeiras décadas de sua vida; e desta maneira reconstrói nas páginas de seu livro uma Juiz de Fora do início do século XX, permeada pela nostalgia de uma época há muito passada e que lhe chega por intermédio de flashes, recortes e lampejos.
O objetivo destes audioguias é que os ouvintes possam escutar tais recordações de Murilo Mendes ao mesmo tempo que caminham pelos espaços urbanos descritos em seu livro. Propomos, com isso, uma cidade a ser lida não somente pelo olhar, mas principalmente pelo caminhar, a partir do corpo em contato com a matéria que inspirou o poeta.
A intenção é que as faixas a serem escutadas promovam uma paisagem do centro de Juiz de Fora, constituindo no ouvinte uma tensão entre a cidade que se escuta (a do início do século XX) e a que se vê e percorre (esta do “aqui e agora”, do século XXI). A partir deste ato de uma leitura que se pratica caminhando, o ouvinte/leitor de Murilo Mendes poderá recriar e tensionar as diferentes paisagens juizforanas que vêm se transformando ao longo das décadas.
Para realizar tal proposta, apresentamos duas rotas: uma é a da Rua Halfeld, a outra é a da Avenida Rio Branco. São nestas duas vias que o poeta articulou suas memórias de encontros e afetos de infância, transformando-as em paisagens repletas de histórias que vêm se sobrepondo e se acumulando ao longo do tempo.
À estas duas, também trazemos também a rota intitulada “Origem, memória, contacto, iniciação”, título que remete ao primeiro capítulo da obra. Esta apresenta o Museu de Artes Murilo Mendes enquanto ponto de partida para, então, propor um trajeto que chega à casa de infância e juventude do poeta, situada na atual Rua Marechal (antiga rua da Imperatriz), permitindo-nos compreender os momentos e pessoas que constituíram seus vínculos familiares.
Apesar destas alterações provocadas pelas passagem do tempo, ainda estamos aqui! Continuamos andando pelo mesmo traçado e trajeto que os pés destes antigos juiz-foranos e visitantes também percorreram. Continuamos pisando sobre seus passos, pois a Avenida Rio Branco e a Rua Halfeld mantêm-se gloriosamente vivas e reinando absolutas como vias emblemáticas deste reino encantado de Juiz de Fora.
É o próprio poeta quem nomeia e institui o “reino de Juiz de Fora” (Mendes, 2003, versão Kindle), “culpando” a sua imaginação fértil e a topografia da cidade por tal estado de encantamento que levou a cidade de sua infância para o tempo do “era uma vez…”
Graças à sua sensibilidade ao mundo do dia-a-dia que o delimitava, o poeta confessa-nos que “movido por um instinto profundo, sempre procurei sacralizar o cotidiano, desbanalizar a vida real, criar ou recriar a dimensão do feérico” (Mendes, 2003, versão Kindle). Mas este seu olhar poético não se construiu somente e exclusivamente a partir de sua personalidade, pois tal sensibilidade seria uma condição e estado de espírito de qualquer mineiro juizforano, como nos diz a seguir:
“Escapando-nos o mar, oprimindo-nos a montanha relativa, a gente se vinga com um desafio maior ao cotidiano; a cidade, pequena, ao mesmo tempo que nos circunscreve, propõe-nos um treino mais intenso dos sentidos e da imaginação. Evadimo-nos da realidade transfigurando-a. Até mesmo pessoas adversas costumam avizinhar- se à nossa experiência de ternura e fundação do mito” (Mendes, 2003, versão Kindle).
As montanhas mineiras, como Morro do Imperador (do Cristo) em Juiz de Fora, criam profundezas, vales onde se erguem e se escondem reinos encantados, situados no tempo do “era uma vez…”. A própria geografia das cidades mineiras exige a reconstrução mágica e encantada do cotidiano. E quando esta condição topográfica encontra-se com a poeticidade imaginativa de Murilo Mendes, surge uma obra memorialística e feérica como “A idade do serrote”.
E é isto que explica o título do produto: “Caminhadas pelo ‘reino de Juiz de Fora’ de Murilo Mendes, na Idade do Serrote”.
Portanto, convidamos àqueles que desejam raspar as camadas do tempo para chegar naquelas paisagens mais antigas que resgatam (dentro do possível) o reino de Juiz de Fora das primeiras décadas do século passado, que naveguem por esta página do projeto, tenham seu celular carregado, peguem seu fone de ouvido e, acompanhados das palavras de Murilo Mendes, percorram as mesmas ruas pelas quais o poeta caminhou.
Sugerimos que façam as rotas e escutem os áudios em seu próprio ritmo, sem pressa, apreciando as palavras do poeta Murilo Mendes, contemplando as paisagens dos locais por onde vocês passarem, refletindo sobre o que mudou e o que permaneceu após mais de um século transcorrido entre sua infância e juventude na cidade e os nossos dias atuais.
Quais as dimensões encantadas ainda persistem e chegaram até nós? Quais outras formas de imaginar a cidade estamos realizando nos dias atuais? O que foi, o que é e o que poderia vir a ser o reino de Juiz de Fora?
Lembrem-se também de que os trechos selecionados são aqueles expressivos de um determinado assunto e tema que decidimos abordar em cada ponto. Mas, o convite para ler o livro está sempre sendo renovado, para que a experiência imersa seja expandida e as citações ouvidas possam ser contextualizadas.
O produto do audioguia “Caminhadas pelo ‘reino de Juiz de Fora’ de Murilo Mendes, na Idade do Serrote”, é fruto do projeto da disciplina de extensão – Paisagens literárias de Juiz de Fora – Murilo Mendes – da Universidade Federal de Juiz de Fora, idealizado e executado pelos professores Guilherme A. P. Malta e Humberto Fois-Braga, ambos do Departamento e Curso de Turismo. Seu desenvolvimento contou com a parceria da direção e equipe de profissionais do Museu de Artes Murilo Mendes, sob a coordenação de Carmem Lúcia Altomar Mattos, responsável pela Divisão de Ação Educativa do museu.
A equipe técnica foi composta por 20 discentes do curso de Turismo da UFJF, que ao longo de todo o ano de 2025 atuaram na elaboração e execução das etapas do projeto. Todos os discentes estão nomeados na ficha técnica abaixo.
Professores do curso de turismo: Guilherme Augusto Pereira Malta e Humberto Fois Braga.
Função no Projeto: Idealizadores, coordenadores e gestores do projeto “Paisagens Literárias: roteiros poéticos pelas ruas de Juiz de Fora” e do produto (áudio-guia) “Caminhadas pelo ‘reino de Juiz de Fora’ de Murilo Mendes, na Idade do Serrote”.
Discentes do curso de turismo da disciplina/projeto de extensão Paisagens literárias de Juiz de Fora – Murilo Mendes( EXT044-2025.1 / EXT044-2025.3)
2025.1
Ana Caroline Ribeiro Da Silva
Ester De Viveiros Justino Bittencourt
Gabriela Emiliane Verly
Maiara Martha De Almeida
Maria Luiza De Assuncao Mariano
Neri Rodrigues Contin
Taynara De Lima Andrade
2025.2
Ana Monique Sabino De Oliveira
Clara Garcia
Dalian Da Silva Souza Martins
Diogo De Oliveira Vicente
Juscelino Rodrigues
Karyne Melchiades Do Nascimento
Matheus Silva Rodrigues
Ricardo Dinelli Junior
Sarah Batista Afonso
Yara Monsores Da Conceição Carvalho Silva
Função no Projeto: mapeamento, elaboração e formatação dos pontos interpretativos a partir da obra “ A Idade do Serrote”.
Bolsista voluntária do projeto de extensão:
Yara Monsores Da Conceição Carvalho Silva
Função no Projeto: revisão, padronização e adequação final das faixas do audioguia.
Funcionários do Museu de Artes Murilo Mendes:
Aloisio Arnaldo Nunes de Castro
Função no Projeto: apoio institucional e suporte ao longo do projeto
Carmem Lúcia Altomar Mattos
Função no Projeto: apoio institucional, suporte, supervisão e revisão das atividades ao longo do projeto.
Leandro Carneiro Mendes
Raquel Barbosa da Silva
Rodrigo de Oliveira Duque