“César Brandão: Container” reúne desenhos do artista, que celebra 70 anos
O desenho como pensamento. A precariedade como método. A materialidade como linguagem. A tensão constante como projeto, ruína e dúvida. Essas são questões recorrentes na trajetória do artista César Brandão e que estão evidenciadas nos desenhos da série “Container”, apresentada na exposição homônima em cartaz na galeria Retratos-relâmpago do Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM) a partir de quinta-feira, 22 de outubro, às 19h.
Na série, o desenho assume a forma de abrigo instável, invólucro provisório e estrutura de contenção precária. O termo “container” não se refere apenas a um objeto ou tipologia arquitetônica, mas a uma ideia ampliada de suporte: aquilo que contém, sustenta, organiza e, ao mesmo tempo, limita. Como afirma o artista: “O desenho é pensamento em processo. Não resolve; mantém em suspensão”.
A mostra integra as ações de um projeto de pesquisa coordenado pelo artista e professor da Instituto de Artes e Design (IAD) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Fabrício Carvalho, que articula investigação acadêmica, curadoria e difusão cultural, ao mesmo tempo em que marca simbolicamente o ano em que o artista completa 70 anos. “Ao eleger essa série como foco principal, a exposição se afasta do modelo retrospectivo e aposta em uma leitura intensiva, capaz de evidenciar como o desenho, em César Brandão, opera como espaço de experimentação conceitual e material”, explicita Carvalho, que compartilha a curadoria com os pesquisadores Ione Ribeiro e André Colombo.
Contém desenhos
De acordo com a curadoria, a série de trabalhos reunidos na mostra explicita o caráter experimental e ético do trabalho de César Brandão, no qual a gambiarra, o improviso e a instabilidade não são efeitos formais, mas princípios estruturantes. “Os desenhos apresentam estruturas frágeis, arquiteturas improváveis, caixas, armações, volumes suspensos e esquemas construtivos que parecem oscilar entre o projeto e o colapso. Linhas se acumulam, se cruzam, se reforçam ou se anulam, criando campos gráficos densos, nos quais o gesto do desenho carrega tanto intenção quanto falha, limite e vazio”, analisam os curadores.
O próprio artista considera a instabilidade como um método: “gosto da rasura, do rascunho, do anárquico. Sei que o ideal é organização, equilíbrio e precisão, mas trabalho – contraditoriamente – a meio caminho”.
Em diálogo com o artista, a exposição propõe, um percurso que evidencia a passagem do desenho ao mundo, entendendo essa transição como um campo de experimentação contínua. “O desenho como um ‘container de pensamento’: um espaço provisório onde ideias são armazenadas, testadas, tensionadas e, por vezes, abandonadas. Em César Brandão, o desenho não resolve; ele mantém em estado de latência”, observam os curadores.
“Só o olho decifra o quadro”
No texto expositivo, o artista Thales Godoi Cruz destaca que as obras convidam o visitante a desvendar as sutilezas que Brandão concedeu ao suporte de papel. “César as situa nos entremeios do bi e do tridimensional, o que me lembra que uma das primeiras noções que me acometeram durante o contato com sua produção: a maneira como que, em seus trabalhos, a qualquer momento a linha encontra-se sujeita a transformar-se em fio, em estrutura, ou vice-versa”, escreve.
A escolha pela disposição dos desenhos busca criar uma relação de proximidade entre as obras, sugerindo a ideia de acúmulo, arquivo e contenção – um grande “container” expositivo. “A exposição propõe uma leitura concentrada e radical do desenho como campo de pensamento e matéria e revela a força de um trabalho que opera no limite entre estrutura e colapso, entre contenção e excesso. Nas palavras do próprio artista: ‘A arte é um saber, mas também é dúvida’, concluem os curadores.
Sobre o artista
César Brandão nasceu em Santos Dumont-MG, em outubro de 1956. Hoje, vive e trabalha em Juiz de Fora-MG. Ao longo de sua trajetória artística, integrou a representação brasileira na 19ª Bienal Internacional de São Paulo (1987) e participou de exposições coletivas no Brasil e em países como Cuba, Argentina e Bélgica. Também realizou exposições individuais em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Suas obras integram o acervo de instituições como o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM São Paulo).
Abertura da exposição “César Brandão: Container”
Data: quinta-feira, 22 de outubro, às 19h
Local: Museu de Arte Murilo Mendes
Endereço: Rua Benjamin Constant, 790 – Centro
Entrada gratuita
Outras informações: (32) 2102-3583 ou producao.mamm@ufjf.br